Jornalistas, ativistas e defensores dos direitos humanos no Marrocos teriam sido alvo de uma estrutura de vigilância digital e física, segundo relatório publicado pela Anistia Internacional em parceria com organizações de mídia e coordenado pela rede Forbidden Stories. O documento aponta a utilização alegada do programa Pegasus entre 2017 e 2021 e reúne relatos de quatro pessoas monitoradas, incluindo o jornalista Omar Radi.
Radi afirmou que começou a perceber sinais de possível invasão em seu telefone entre 2018 e 2020, como consumo anormal de bateria, aquecimento do aparelho e lentidão na conexão. Uma análise realizada pelo Security Lab da Anistia, em junho de 2020, identificou o jornalista como possível alvo do spyware desenvolvido pela empresa israelense NSO Group. Ele disse ainda ter sido seguido e monitorado presencialmente em locais que frequentava.
O relatório, intitulado “We Start With the Verdict: Inside Morocco’s Surveillance Machine”, também trata dos casos do ativista Fouad Abdelmoumni, do advogado de direitos humanos Abdessadak El Bouchattaoui e do jornalista exilado Hicham Mansouri. A organização afirma ter cruzado o depoimento de um ex-funcionário da Direção-Geral de Vigilância Territorial, identificado pelo pseudônimo Safir, com evidências técnicas, fontes independentes e entrevistas com dez pessoas que teriam sido monitoradas.
A Anistia atribui à agência de inteligência marroquina a operação do Pegasus no país. Segundo sua análise, 103 números de telefone marroquinos apareceram em registros de possível seleção para vigilância entre setembro e dezembro de 2017. Desses, 65 estavam ligados a integrantes da sociedade civil, incluindo 34 defensores de direitos humanos, 22 jornalistas e trabalhadores da mídia, cinco advogados e quatro acadêmicos.
O depoimento atribuído a Safir descreve uma combinação de espionagem digital, acompanhamento presencial, gravações secretas e recrutamento de informantes. O ex-funcionário também relatou o suposto uso de sistemas de controle remoto em computadores de lan houses, com acesso potencial a chamadas, mensagens, fotografias e áudio. Em um dos episódios citados, Abdelmoumni teria sido filmado secretamente dentro de casa, em 2021.
As autoridades marroquinas já rejeitaram acusações anteriores de uso do Pegasus contra jornalistas, ativistas e outros críticos. Em manifestações de 2020 e 2022, cobraram provas materiais das alegações. A Anistia informou que enviou o relatório ao governo quatro semanas antes da divulgação e ofereceu espaço para resposta, mas não recebeu retorno até a publicação. Também não havia resposta oficial às solicitações de posicionamento feitas para esta reportagem.
O jornalista Taoufik Bouachrine, que não aparece entre os quatro casos centrais do relatório, relatou métodos de pressão semelhantes. Ele citou processos criminais envolvendo acusações de natureza sexual, campanhas de difamação na internet e estrangulamento financeiro de veículos independentes. Bouachrine foi condenado a 15 anos de prisão em 2018, negou as acusações e teve sua detenção considerada arbitrária pelo Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenção Arbitrária. Após mais de seis anos preso, foi libertado por perdão real, mas o jornal que fundou já havia encerrado as atividades.


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