Os cortes de energia se tornaram mais frequentes na Venezuela desde o início de 2026 e passaram a atingir residências, empresas e serviços essenciais. Em algumas regiões, as interrupções ocorrem diariamente e duram cerca de sete horas, provocando protestos contra o governo da presidente interina Delcy Rodríguez.

Em Valencia, no estado de Carabobo, o fornecimento instável interrompeu sessões de hemodiálise de Onasis Muñoz, de 34 anos. O paciente precisa do tratamento três vezes por semana por causa da insuficiência renal, mas as baterias de emergência da clínica acabaram e o gerador deixou de funcionar. Segundo Muñoz, a rotina também ficou mais difícil em casa, onde o calor e a falta de ar-condicionado impedem o descanso.

A insatisfação levou moradores de diferentes estados às ruas. Entre as manifestações estão os chamados cacerolazos, com panelas e frigideiras batidas em protesto, além de bloqueios de vias e incêndios em pneus. Em Maracaibo, capital do estado petrolífero de Zulia, a advogada Patricia Cueva afirmou que a população não consegue descansar nem trabalhar e que as crianças também sofrem com a situação.

Uma pesquisa da consultoria ANOVA Policy Research apontou que 62,8% dos domicílios venezuelanos tiveram cortes diários em 2026, ante 37,1% em 2024. Apenas 6,9% dos entrevistados disseram contar com fornecimento contínuo de eletricidade.

O governo atribui parte da crise ao fenômeno climático El Niño. Cerca de 90% da eletricidade venezuelana é gerada por usinas hidrelétricas, o que torna o sistema vulnerável ao calor extremo e à seca. Governos anteriores também responsabilizaram sanções estrangeiras pelo enfraquecimento da economia do país.

O especialista em energia Nelson Hernández, porém, afirmou que a escala dos cortes deste ano está ligada principalmente à falta de manutenção da infraestrutura, a falhas de gestão, à ausência de planejamento estratégico e ao envelhecimento da tecnologia. Para ele, as condições climáticas influenciam a produção, mas não explicam sozinhas o problema.

A retomada da produção de petróleo também aumentou a pressão sobre a rede elétrica, segundo Hernández. Dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) indicam que a produção venezuelana subiu de 924 mil barris por dia, em janeiro, para 1,201 milhão, em agosto — alta de quase 30% no período. O especialista estima que as atividades de extração, bombeamento, transporte e refino demandem cerca de 1.600 megawatts ou mais.

Como o fornecimento aos campos de petróleo não pode ser reduzido sem colocar a produção em risco, os setores residencial e comercial acabam absorvendo o impacto dos cortes, avaliou Hernández. O governo Rodríguez afirma que pretende adicionar 1.300 megawatts de geração no último trimestre do ano e adotou medidas para obrigar empresas de energia a investir em estruturas próprias, reduzindo a pressão sobre a rede pública. Especialistas defendem também investimentos amplos na recuperação de usinas antigas e na expansão da geração local e renovável, enquanto famílias e empresas que não têm geradores seguem adaptando a rotina aos períodos de fornecimento disponível.