Glasgow se tornou a principal cidade europeia na fabricação de pequenos satélites, em um setor que cresceu a partir de empresas, universidades e fornecedores especializados. A expansão, porém, ocorre enquanto países como Alemanha, Finlândia e França aumentam os recursos destinados à indústria espacial, o que levanta dúvidas sobre a capacidade escocesa de manter empregos, investimentos e conhecimento na região.
Grande parte dos equipamentos produzidos na cidade é formada por CubeSats, satélites modulares cujas unidades básicas medem 10 centímetros de cada lado. Menores, mais baratos e mais rápidos de desenvolver que satélites convencionais, eles podem receber câmeras, sensores e sistemas de comunicação para aplicações como previsão do tempo, posicionamento global, monitoramento de florestas e plantações, logística e acompanhamento das mudanças climáticas.
A trajetória de Glasgow começou em 2005, quando o engenheiro Craig Clark fundou a Clyde Space. A empresa se especializou em CubeSats e desenvolveu, em parceria com a Universidade de Strathclyde, o UKube-1, primeiro satélite da Escócia. A iniciativa ajudou a formar uma cadeia local que depois atraiu companhias como Craft Prospect, Alba Orbital e a americana Spire Global.
A concentração de empresas criou um ecossistema que reúne fabricação de componentes, montagem de satélites, estações terrestres e atividades relacionadas a lançamentos. A Clyde Space foi adquirida em 2018 pela sueca AAC Microtec, mas Glasgow continua sendo o principal local de produção de satélites do grupo. A Spire também mantém operações na cidade, embora tenha ampliado sua fabricação em Munique.
Dados do governo escocês indicam que mais pequenos satélites são produzidos em Glasgow do que em qualquer outra cidade europeia. Em toda a Escócia, a indústria espacial gerou 335 milhões de libras em receitas em 2022-23, alta de 69% em cinco anos. Sem contar a radiodifusão tradicional por satélite, o setor empregava 2.811 pessoas, crescimento de 81% no mesmo período.
A Universidade de Strathclyde também passou a ocupar um papel central na formação de profissionais e no desenvolvimento tecnológico. Mais de 100 pessoas trabalham atualmente em atividades ligadas ao espaço na instituição, que mantém projetos de pesquisa com empresas do setor. Para os estudantes, a expansão criou oportunidades de trabalho locais que praticamente não existiam quando os atuais pesquisadores se formaram.
O avanço de outros polos europeus, contudo, acendeu sinais de alerta. O Ministério da Defesa da Alemanha planeja investir cerca de 35 bilhões de euros em capacidades espaciais militares nos próximos anos, incluindo mais de 100 satélites de comunicações criptografadas. Na Finlândia, a empresa ICEYE, especializada em satélites de radar capazes de produzir imagens mesmo com nuvens ou durante a noite, captou mais de 1 bilhão de euros em uma rodada de financiamento e passou a ser avaliada em mais de 10 bilhões de euros. O Estado finlandês detém cerca de 12% da companhia.
A guerra na Ucrânia e o aumento das tensões geopolíticas fizeram governos tratarem o espaço não apenas como área de pesquisa, mas também como componente estratégico de defesa, comunicação e inteligência. Para especialistas, contratos públicos podem definir onde as empresas investem, onde os engenheiros trabalham e onde o conhecimento se concentra. Países que garantem grandes clientes domésticos às suas empresas tendem a criar vantagens duradouras para o setor local, avaliam pesquisadores de economia espacial e compras governamentais citados na análise do mercado europeu de defesa e tecnologia avançada.


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