Milhares de pessoas protestaram diante do Parlamento da Espanha após a morte de María del Carmen Abascal, conhecida como Maricarmen, aos 87 anos. O despejo da idosa de sua casa em Madri havia desencadeado manifestações em todo o país e contribuído para a convocação de uma eleição geral antecipada.

Abascal foi retirada de sua residência em uma maca no dia 23 de setembro, depois de viver no imóvel por cerca de 70 anos. Ela foi hospitalizada com ansiedade severa e exaustão e, durante a internação, chegou a um acordo para retornar para casa. A idosa morreu antes de conseguir voltar. A causa da morte não foi divulgada.

Na quinta-feira, manifestantes caminharam da praça Puerta del Sol até o antigo endereço de Abascal. Flores, velas, bilhetes e desenhos de crianças foram deixados diante do prédio. Durante o ato, participantes entoaram palavras de ordem que associavam as mortes decorrentes da crise habitacional a assassinatos.

As homenagens também provocaram confronto político na Assembleia de Madri. Alberto Núñez Feijóo, líder do conservador Partido Popular, acusou o primeiro-ministro Pedro Sánchez e os socialistas de tentarem explorar eleitoralmente a crise da moradia. O Partido Popular, que tem maioria absoluta nas assembleias regional e municipal de Madri, não participou de um minuto de silêncio em memória de Abascal. Parlamentares da esquerda fizeram uma homenagem em frente à prefeitura e aplaudiram a idosa por 60 segundos durante um debate tenso, enquanto deputados do partido permaneceram sentados.

A convocação da eleição para 29 de novembro ocorreu depois que o Parlamento não aprovou medidas emergenciais para a habitação. Partidos de esquerda criticaram os conservadores por rejeitarem propostas voltadas a conter a alta dos aluguéis.

Uma pesquisa realizada em junho pelo Centro de Investigações Sociológicas e divulgada na quinta-feira apontou que 76,3% dos espanhóis apoiam a intervenção no mercado para garantir o acesso à moradia. Além disso, 79% consideram que o direito à habitação deve prevalecer sobre o tratamento das casas como mercadorias.

O ombudsman espanhol, Ángel Gabilondo, afirmou que o enfrentamento da crise exigirá maior compromisso de todas as esferas de governo. Entre as medidas defendidas por seu gabinete estão a ampliação da moradia pública, a restrição de aluguéis turísticos, o reforço da ajuda para pagamento de aluguel e a proteção de famílias vulneráveis contra despejos.