Forças federais da Etiópia e combatentes aliados assumiram o controle de Mekelle, capital da região de Tigré, após a retirada da Frente de Libertação do Povo de Tigré (TPLF). A mudança ocorre em meio à retomada dos combates e menos de quatro anos depois do acordo que encerrou a guerra de 2020 a 2022.
A TPLF confirmou a saída no sábado e afirmou que sua administração regional passaria a funcionar temporariamente em outro local. A organização descreveu a decisão como uma medida tática para evitar mais destruição na cidade e indicou que seus combatentes continuariam a luta a partir de outras posições.
Moradores, um trabalhador humanitário e uma fonte de uma milícia pró-governo relataram que as forças federais e seus aliados entraram na cidade. O aeroporto e outros pontos estratégicos passaram ao controle das forças alinhadas ao governo, após um período de incerteza e relatos de saques em algumas áreas, incluindo prédios públicos.
O conflito anterior deixou centenas de milhares de mortos, milhões de deslocados e graves danos à infraestrutura e aos meios de subsistência, segundo estimativas citadas na reportagem. O acordo de Pretória, firmado em novembro de 2022 com mediação da União Africana, encerrou os combates em larga escala, mas não solucionou disputas territoriais, o retorno de pessoas deslocadas e o desarmamento das forças de Tigré.
Em julho, a TPLF afirmou que o acordo havia fracassado na prática e acusou o governo federal de não cumprir compromissos centrais. O governo rejeitou essa avaliação, declarou continuar comprometido com o processo de paz e acusou a TPLF de enfraquecer o pacto. Desde então, foram registrados relatos de confrontos pontuais, ataques com drones e movimentações militares em Tigré.
A tensão também alcançou Adis Abeba. Moradores relataram ter ouvido explosões em diferentes partes da capital, inclusive nas proximidades do quartel-general das Forças Armadas. Uma fonte ligada a uma aliança oposicionista afirmou que o grupo realizou ataques com drones contra instalações militares, mas a alegação não foi verificada de forma independente.
A atual escalada envolve mais atores do que a guerra encerrada em 2022. A TPLF integra uma aliança oposicionista mais ampla, que reúne grupos armados de outras partes do país, enquanto os combates também avançaram para Afar. As relações entre Etiópia e Eritreia se deterioraram: o governo etíope acusou o país vizinho de interferência e apoio a forças contrárias a Adis Abeba, acusações rejeitadas pela Eritreia.
Na quinta-feira, a Etiópia anunciou o fechamento de sua embaixada em Asmara e declarou dez diplomatas eritreus persona non grata, alegando ameaças à segurança nacional. Em seguida, a Eritreia comunicou o rompimento das relações diplomáticas com a Etiópia, ampliando o temor de que o conflito adquira uma dimensão regional. Enquanto o governo federal prepara uma nova administração interina e afirma trabalhar para realizar eleições regionais nos próximos meses, a TPLF sustenta que continuará combatendo. Para os moradores, a principal preocupação é evitar uma repetição da guerra, dos deslocamentos e da crise humanitária anteriores.


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