O padre Marcelo Rossi relatou sua experiência com a depressão e defendeu que espiritualidade, ciência e cuidados profissionais podem atuar de forma complementar no tratamento de transtornos mentais. A declaração foi feita durante um talk show realizado no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em São Paulo.
O religioso contou que enfrentou um episódio depressivo em 2013, depois de passar anos acreditando que a doença era apenas falta do que fazer. Segundo ele, reconhecer a necessidade de ajuda foi difícil também pelo receio de ser julgado ou considerado louco por procurar um psiquiatra.
Marcelo afirmou que o quadro durou sete meses e 22 dias. Nesse período, chegou a pesar 60 quilos, desenvolveu anorexia e perdeu a capacidade de sentir o gosto dos alimentos. Apesar das dificuldades, disse que não perdeu a vontade de viver e manteve atividades como celebrar missas, ler a Bíblia e fazer exercícios físicos.
O padre também mencionou o histórico familiar de sofrimento psíquico: seu avô, que ele não chegou a conhecer, morreu por suicídio. Ao falar sobre a própria recuperação, reforçou a importância de terapia, medicamentos e acompanhamento com profissionais especializados, sem colocar a fé no lugar da medicina.
Para Marcelo, pessoas que ocupam funções de cuidado, como sacerdotes, também estão sujeitas ao desgaste emocional. Ele afirmou que ouvir relatos difíceis com frequência pode levar à somatização e destacou a necessidade de atenção ao sono, ao corpo e aos limites físicos e emocionais.
As lembranças de bullying na adolescência também fizeram parte da conversa. O religioso relatou que era alvo de comentários por usar calçado tamanho 46 aos 13 anos e afirmou que humilhações podem deixar marcas profundas em crianças e adolescentes. Na avaliação dele, as redes sociais ampliaram a preocupação ao facilitar a disseminação de ofensas.
Marcelo ainda negou usar anabolizantes e alertou sobre os riscos dessas substâncias, especialmente entre jovens que buscam mudanças rápidas no corpo. Ele relacionou a pressão estética ao cuidado com a saúde e defendeu hábitos equilibrados.
A relação entre espiritualidade e saúde mental também é investigada por estudos. Uma revisão publicada na revista Debates em Psiquiatria encontrou associação entre maior envolvimento religioso e menores índices de depressão, abuso e dependência de substâncias e comportamento suicida, mas os pesquisadores ressaltaram que isso não prova que a religião, sozinha, previna ou trate transtornos mentais. A Organização Mundial da Saúde considera dimensões espirituais, religiosas e ligadas às crenças pessoais em instrumentos de avaliação da qualidade de vida, sem recomendá-las como substitutas de intervenções clínicas.


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