A agência de tecnologia do governo de Singapura, GovTech, iniciou um projeto-piloto de relacionamentos voltado a servidores públicos solteiros, em uma nova tentativa de responder à queda da natalidade no país. Batizada de FirstDate, a plataforma seleciona um parceiro por vez com base em interesses, hábitos e valores informados pelos usuários.

O acesso é feito com a identidade digital nacional. Os participantes respondem a um questionário e recebem uma única sugestão de compatibilidade, em vez de navegar por uma sequência de perfis. O teste é restrito a funcionários de órgãos públicos entre 21 e 35 anos, e as inscrições foram encerradas na segunda-feira. Ainda não há decisão sobre uma eventual expansão para além do funcionalismo.

A ferramenta utiliza uma versão do algoritmo Gale-Shapley, criado pelos matemáticos David Gale e Lloyd Shapley em 1962. O método cruza as preferências de cada lado para formar pares e também é empregado em processos como admissão escolar e distribuição de vagas para residência médica. Shapley dividiu o Prêmio do Banco da Suécia em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel em 2012.

A iniciativa foi desenvolvida durante um hackathon anual da GovTech e ocorre após o nascimento de menos de 30 mil bebês em 2025, quando a taxa de fecundidade caiu para o recorde de 0,87. Em agosto, o primeiro-ministro Lawrence Wong anunciou benefícios de quase 70 mil dólares de Singapura por criança, distribuídos do nascimento até os 17 anos.

O governo teme que a população cidadã comece a encolher no início da década de 2040, reduzindo o número de trabalhadores disponíveis para cuidar dos idosos. Singapura já depende fortemente da imigração para atender às necessidades do mercado de trabalho e prevê receber entre 25 mil e 30 mil novos cidadãos por ano nos próximos cinco anos.

A proposta, porém, gerou reações variadas. Há críticas ao uso de dinheiro público e dúvidas sobre privacidade, embora a página da FirstDate informe que os perfis só ficam visíveis para o par correspondente, que os contatos só são compartilhados com consentimento mútuo e que os dados não serão monetizados nem repassados a terceiros, salvo nos casos permitidos ou exigidos por lei.

Pesquisadores também questionam a capacidade de questionários preverem se duas pessoas terão afinidade e alertam que o sistema depende de uma base ampla de participantes. Para críticos da iniciativa, fatores como custo de moradia, transporte e falta de espaços de convivência podem ser obstáculos mais concretos aos relacionamentos do que a ausência de uma ferramenta de compatibilidade. Singapurenses solteiros só podem comprar imóveis públicos individualmente a partir dos 35 anos.