A Anthropic afirmou ter identificado, com auxílio de agentes de inteligência artificial, um padrão incomum de DNA em vírus que pode estar associado a um sistema enzimático semelhante ao CRISPR. A empresa descreveu o achado como um sistema biológico ainda não caracterizado, mas reconheceu que sua função e possíveis aplicações práticas continuam desconhecidas.
A análise foi feita em sequências genéticas de bacteriófagos, vírus que infectam bactérias. De acordo com a empresa, 950 agentes de IA trabalharam por 21 horas na busca por exemplos de transcriptase reversa — enzima capaz de copiar RNA em DNA. O processo avaliou cerca de 3.500 possibilidades e selecionou 20 para análise mais detalhada.
A Anthropic informou que seus pesquisadores deram apenas orientações gerais aos agentes e depois analisaram e testaram o padrão identificado. A estrutura encontrada apresenta semelhanças com sistemas naturais relacionados ao CRISPR, tecnologia usada para edição genética e associada ao Nobel de Química de 2020. Isso, porém, não demonstra que o novo sistema seja capaz de editar genes.
Especialistas ouvidos sobre o caso classificaram o resultado como interessante, mas preliminar. Aaron Engelhart, professor da Universidade de Minnesota, afirmou que os dados disponíveis não comprovam edição genética nem esclarecem exatamente o mecanismo envolvido. A pesquisa também ainda não havia sido publicada em uma revista científica com revisão por pares.
A origem do resultado passou a ser questionada depois que Mario Rodríguez Mestre, pesquisador que concluiu recentemente seu doutorado na Universidade de Copenhague, disse ter trabalhos não publicados descrevendo as mesmas assinaturas virais. Ele afirmou que havia utilizado uma conta privada do Claude para compartilhar rascunhos, análises e materiais de sua pesquisa.
Mestre disse não ter provas de que a Anthropic tenha usado deliberadamente seu trabalho. Entre as possibilidades levantadas por ele estão a eventual exposição de informações ao treinamento do modelo ou a existência de uma base científica e de uma orientação humana mais ampla do que a expressão “descoberta autônoma” indicaria. A Anthropic não respondeu ao pedido de comentário mencionado na reportagem.
Cientistas também destacaram que resultados semelhantes podem ser alcançados por grupos diferentes, mas consideraram a alegação relevante para o uso de ferramentas de IA com dados científicos inéditos. O caso reacende dúvidas sobre confidencialidade, atribuição e definição de originalidade quando modelos são empregados em pesquisas ainda não divulgadas.
Para pesquisadores como Gustavo Sudre, do King’s College London, a capacidade de examinar enormes volumes de dados e selecionar padrões promissores representa uma mudança em relação ao uso tradicional da IA como simples ferramenta de análise. Ainda assim, ele ressaltou que existe uma grande distância entre encontrar um padrão interessante e transformá-lo em conhecimento científico útil. Outros especialistas afirmam que a autonomia atribuída aos sistemas é, em alguns casos, apresentada de forma exagerada, já que o trabalho depende de cientistas experientes para definir os caminhos e avaliar os resultados.


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