Empresas conhecidas como “neoclouds”, especializadas em alugar grandes estruturas de computação para grupos como Anthropic, OpenAI e Meta, passaram a ser alvo de preocupação entre investidores. A queda das ações e o alto endividamento levantam dúvidas sobre a solidez financeira de um segmento considerado importante para a expansão da inteligência artificial.
Essas companhias costumam firmar contratos de longo prazo com grandes clientes para garantir acesso rápido a capacidade computacional. Com os contratos e os chips adquiridos como garantia, elas conseguem levantar empréstimos para financiar a compra antecipada de equipamentos, segundo o analista Cory Johnson, da consultoria de pesquisa de ofertas públicas The Quiet Period.
A CoreWeave, líder do setor, acumulou US$ 35,1 bilhões em dívidas. Johnson avalia que, em alguns casos, os credores podem considerar mais a capacidade financeira de clientes como Microsoft e Meta do que a própria situação da empresa ao conceder financiamentos.
O mercado acionário reagiu com cautela. As ações da CoreWeave perderam cerca de um quarto do valor no período recente, enquanto papéis de Nebius, IREN e Applied Digital recuaram em proporção semelhante ou ainda maior. Investidores de dívida também passaram a exigir retornos mais altos de algumas empresas do segmento. O presidente da CoreWeave, Mike Intrator, classificou a reação do mercado como “irracional” e afirmou confiar no modelo de negócios da companhia.
Parte das neoclouds surgiu no setor de mineração de criptomoedas, que utiliza infraestrutura física semelhante à empregada no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. A CoreWeave começou em 2017 voltada à mineração de Ethereum; IREN, Core Scientific e Applied Digital também têm origem nesse mercado. A Nebius é uma exceção: a empresa era conhecida como Yandex NV e se separou da companhia russa antes de adotar o novo nome em 2024.
O desempenho das neoclouds depende, em grande medida, dos planos de investimento de desenvolvedoras de IA e de grandes operadoras de data centers. Para Melissa Otto, da S&P Global, há uma corrida por infraestrutura, mas o modelo também amplia o risco financeiro caso os grandes clientes reduzam seus gastos. A reação negativa se intensificou depois que Microsoft e Google projetaram despesas com IA abaixo do esperado por analistas de Wall Street.
As perspectivas também estão ligadas à capacidade de continuar tomando empréstimos, especialmente quando os juros tornam o crédito mais caro. Analistas da Gartner projetam que 80% das neoclouds deixarão de operar de forma independente até 2030, enquanto especialistas da Forrester esperam que pelo menos três sejam adquiridas em meio ao enfraquecimento financeiro. Elon Musk afirmou que mais de 200 empresas poderiam enfrentar falências ou consolidação, com as menores em maior risco.
Apesar das turbulências, analistas da Yorkville Ives afirmam que a procura por capacidade de computação ainda supera a oferta e que as neoclouds ocupam uma lacuna que as grandes empresas de data centers não conseguem preencher. Ao mesmo tempo, o setor enfrenta obstáculos concretos: a Microsoft cancelou um acordo com a britânica Nscale devido a problemas de fornecimento de energia, e a australiana Firmus suspendeu planos de abrir seu capital. As incertezas ocorrem em meio à reação de comunidades contra novos data centers e ao debate sobre o impacto da IA na produtividade dos trabalhadores.


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