O senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado na eleição presidencial, recuou de uma declaração feita em uma carta publicada nesta quarta-feira (28/10). Na primeira versão do documento, divulgada após sua chegada aos Estados Unidos, ele se apresentou como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Minutos depois, republicou o texto nas redes sociais sem essa expressão.

Apesar da mudança, o senador manteve as acusações de fraude eleitoral e de perseguição política contra integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na carta, ele também confirmou que está nos Estados Unidos com a família e afirmou que pretende comandar a oposição brasileira a partir do exterior.

A primeira versão do documento chamou a atenção pela semelhança com a estratégia adotada pelo venezuelano Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente interino da Venezuela em 2019, após contestar a reeleição de Nicolás Maduro.

Resultado oficial contradiz acusação de fraude

Flávio afirma que uma decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que prorrogou o horário de votação até as 19h, teria permitido que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistasse mais de 10 milhões de votos adicionais entre o primeiro e o segundo turno.

Entretanto, os dados oficiais não sustentam essa alegação. Segundo informações divulgadas pelo TSE na terça-feira (27), 32.399 votos foram computados entre 17h e 18h, outros 1.981 entre 18h e 19h e apenas 13 após as 19h.

Somados, os votos registrados após as 17h totalizaram 34.393, número inferior a 1% da diferença final entre os candidatos.

O resultado oficial proclamado pelo TSE apontou a vitória de Lula, com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença foi de aproximadamente 4,43 milhões de votos.

A variação entre os turnos também é explicada pela transferência de votos dos candidatos eliminados no primeiro turno, pelo aumento do número de votos válidos e pela redução da abstenção.

Partido e aliados reconhecem vitória de Lula

A contestação de Flávio contrasta com o posicionamento de integrantes do próprio campo político. O Partido Liberal (PL), legenda do senador, reconheceu oficialmente o resultado eleitoral em nota assinada pelo presidente Valdemar Costa Neto.

O deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa, também reconheceu a derrota. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que fez campanha para Flávio, igualmente reconheceu a vitória de Lula.

O resultado foi proclamado pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal em 2020 pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio.

Na ocasião, o ministro afirmou que não houve alteração no resultado decorrente da decisão judicial sobre o horário de votação e declarou confiança no processo eleitoral.

Carta cita Juan Guaidó e líderes que atuaram no exílio

Na primeira versão do documento, Flávio se declarou presidente eleito mesmo estando fora do Brasil. A retirada da expressão na republicação afastou a autoproclamação formal, mas não alterou o conteúdo central da carta, que mantém a tese de fraude e a promessa de liderar a oposição do exterior.

O texto cita Juan Guaidó, que, em janeiro de 2019, se declarou presidente interino da Venezuela, alegando que a reeleição de Nicolás Maduro havia sido fraudulenta. Na época, Guaidó recebeu reconhecimento dos Estados Unidos, durante o primeiro governo de Donald Trump, e de diversos outros países.

Ele chegou a organizar uma estrutura paralela de governo, mas não conseguiu assumir o controle do Estado venezuelano. A oposição encerrou o chamado governo interino no fim de 2022, e Guaidó deixou o país no ano seguinte.

Flávio também menciona figuras como Rui Barbosa, Charles de Gaulle, José Martí, Edmundo González e María Corina Machado para defender a atuação política fora do país.

Senador cita investigação e cancelamento de passaportes

Na carta, Flávio também acusa o ministro Alexandre de Moraes, do STF, de promover perseguição política. O senador relaciona suas críticas a um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo seu nome e o advogado Willer Tomaz.

Segundo as informações divulgadas, Moraes determinou a entrega dos passaportes à Polícia Federal, e os documentos comum e diplomático do senador foram cancelados na terça-feira (27), quando ele já havia deixado o Brasil.

Flávio afirma que não existe mandado de prisão contra ele e sustenta que as medidas judiciais teriam motivação política. As acusações apresentadas na carta, contudo, não vêm acompanhadas de provas que demonstrem a existência de fraude eleitoral ou de uma conspiração institucional.

Promete liderar oposição dos Estados Unidos

No trecho final, Flávio se dirige a senadores, deputados e governadores aliados e cita o senador Rogério Marinho (PL-RN) como seu candidato à presidência do Senado.

“Liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer”, escreveu.

O senador promete divulgar novas mensagens regularmente e apresentar uma estratégia para mobilizar seus apoiadores por meios que classifica como pacíficos e legítimos.

A mudança na carta, portanto, foi pontual: Flávio retirou a declaração explícita de que seria o presidente eleito, mas manteve o discurso de contestação do resultado eleitoral e a intenção de liderar a oposição brasileira a partir dos Estados Unidos.