O Itamaraty orientou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a adotar uma postura pragmática diante da ida do senador Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos. A recomendação é que o governo brasileiro deixe o caso sob responsabilidade da Justiça e evite um confronto público com os presidentes Donald Trump e Javier Milei.

Flávio deixou o Brasil apesar de uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que havia determinado a entrega de seus passaportes à Polícia Federal e proibido sua saída do país. O senador viajou com a mulher e as duas filhas e entrou nos Estados Unidos sob o regime de parole, uma autorização temporária destinada a situações de interesse humanitário ou benefício público significativo.

A viagem ocorreu em um jato particular que saiu da Argentina, fez escala no Equador para reabastecimento e seguiu para Miami. O jornal The New York Times informou que a aeronave teria sido providenciada por Jason Miller, funcionário da Casa Branca. Já Luis Grande, proprietário da empresa responsável pelo transporte, afirmou à France Presse que o voo foi contratado e pago por um intermediário do setor aeronáutico, por meio de uma conta bancária nos Estados Unidos. Segundo ele, o pagamento foi de US$ 150 mil.

O Departamento de Segurança Interna americano declarou que Flávio e seus familiares foram recebidos e submetidos à inspeção pela agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras, conforme as leis e os procedimentos de imigração aplicáveis. A Casa Branca e o Departamento de Estado foram questionados sobre a entrada do senador e sobre eventual participação de Trump no caso.

Flávio é alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal e perderá o foro privilegiado ao fim do mandato, em 31 de janeiro de 2027. Uma autoridade americana afirmou que ele poderá solicitar residência permanente nos Estados Unidos e que o pedido teria tramitação acelerada, à semelhança do que ocorreu anteriormente com Eduardo Bolsonaro.

Lula se reuniu com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, antes da viagem do chanceler aos Estados Unidos para uma reunião de ministros do G20. Vieira poderá encontrar o secretário de Estado americano, Marco Rubio, embora não houvesse reunião formal marcada. O governo brasileiro considera Rubio próximo da família Bolsonaro nos Estados Unidos.

A estratégia avaliada pelo Planalto é não responder às declarações de Trump sobre a eleição brasileira nem às manifestações de Flávio, que chegou a se apresentar como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil” em uma carta e depois alterou a expressão para “líder do Brasil”. A crise também pode atrasar a análise do governo brasileiro sobre a concessão do agrément ao deputado estadual Daniel Perez, indicado por Trump para a embaixada dos Estados Unidos no Brasil.

Em resolução política, a Executiva Nacional do PT afirmou que a atuação de Trump e a recepção de Flávio em território americano exigem atenção e declarou que o Brasil não aceitará interferência estrangeira em sua democracia.